A escolha de José María Balcázar Zelada como presidente interino do Peru não representa uma solução para a crise mas sim mais um sintoma de um sistema político em colapso contínuo. Em vez de estabilidade, a decisão do Congresso reforça a percepção de que o país vive um ciclo quase permanente de governos provisórios, acordos de bastidores e perda de legitimidade institucional.
A presidência interina surge não como resposta à vontade popular, mas como produto de um Parlamento desacreditado, frequentemente acusado de priorizar disputas internas em detrimento das demandas da população.
Um governo sem mandato popular real
Balcázar assume o comando sem ter sido eleito diretamente para a Presidência. Isso amplia a distância entre governo e sociedade, especialmente em um país marcado por protestos massivos e forte rejeição às elites políticas.
Críticos apontam que:
- A população não escolheu o novo presidente
- O Congresso tem níveis historicamente baixos de confiança
- A sucessão ocorre por manobras legais, não por legitimidade eleitoral
- O risco de novos protestos é elevado
Congresso forte, Executivo frágil
O sistema político peruano criou um desequilíbrio estrutural: o Legislativo possui instrumentos poderosos para derrubar presidentes, enquanto o Executivo enfrenta enormes dificuldades para governar com maioria estável.
Esse cenário produziu uma sequência de líderes enfraquecidos, incapazes de implementar reformas estruturais ou políticas públicas duradouras.
O resultado é um Estado paralisado, onde crises substituem políticas de longo prazo.
Economia refém da turbulência política
Embora o Peru mantenha setores econômicos relativamente sólidos, a instabilidade constante gera efeitos negativos concretos:
- Queda na confiança de investidores
- Atraso em projetos de infraestrutura
- Paralisações provocadas por protestos
- Aumento da incerteza econômica
Protestos e tensão social podem aumentar
A eleição de um presidente interino raramente reduz a tensão nas ruas. Pelo contrário, pode intensificar mobilizações, especialmente entre grupos que exigem mudanças profundas no sistema político.
Entre as principais demandas populares estão:
- Eleições gerais antecipadas
- Reformas constitucionais
- Combate à corrupção
- Maior representatividade política
Sem respostas claras, o risco é de um novo ciclo de confrontos entre manifestantes e forças de segurança.
Eleições antecipadas solução ou novo impasse
A convocação de eleições é vista como saída inevitável, mas não necessariamente suficiente. O sistema partidário fragmentado e a desconfiança generalizada podem produzir outro governo frágil, perpetuando a instabilidade.
O problema do Peru parece menos ligado a um líder específico e mais a um modelo político incapaz de gerar governabilidade.
Impacto regional e alerta democrático
A crise peruana serve como alerta para a América Latina sobre os riscos de sistemas institucionais frágeis e polarização extrema. A sucessão constante de presidentes enfraquece a imagem internacional do país e levanta dúvidas sobre sua capacidade de manter estabilidade democrática.
José María Balcázar inicia sua gestão sem capital político robusto, sem mandato popular e sob pressão de múltiplos atores seu principal objetivo não será governar, mas evitar que o país mergulhe em uma crise ainda maior.



